Conversando com Jon Lee Anderson
Jon Lee Anderson é um dos ‘motivos’ pelos quais a gente — ou a maioria das pessoas, eu acho — escolhe ser jornalista. Afinal, contar histórias, descobrir personagens, denunciar e presenciar momentos que você sabe, serão lembrados em décadas, é tudo o que se quer nesta profissão. Mas nem todos chegam lá.
Este americano chegou. Lendo seus livros e reportagens, você se depara não com um simples jornalistas, mas com um dos maiores cronistas políticos da atualidade. Curioso pensar que tudo começou sem grandes pretenções.
“Sempre fui muito aventureiro, e queria muito contar histórias sobre as pessoas. Quando estava no Peru [Lee é filho de diplomata e por isso, mesmo antes de tornar-se jornalista, morou em vários países diferentes] vi um anúncio que dizia ‘precisa-se de repórter’. Resolvi fazer o teste. Me deram uma prova, eu passei e comecei na profissão, sem nenhuma experiência, mas com o desejo de aprender o máximo”, contou ele em um bate-papo na faculdade Cásper Líbero no último final de semana.
A partir daí, o jornalista mergulhou nos mais diferentes conflitos e guerrilhas, tornando-se um dos principais nomes do jornalismo de guerra. Para escrever seu primeiro livro, “Guerrillas: Journeys In the Insurgent World”, de 92, esteve em El Salvador, no Afeganistão, em Mianmar, no Saara Ocidental e na Faixa de Gaza.
O interesse pelo tema tem explicação. “As guerras civis, apesar de sangrentas, podem mudar uma sociedade, as formas de governo e o modo como as pessoas veem a política”, diz.
Dividido entre as reportagens e os livros, ambos tomando um tempo extenso de pesquisa, apuração e escrita, Jon Lee ficou conhecido quando lançou aquela que seria a primeira biografia oficial de Che Guevara, em 1997. O trabalhou exigiu dedicação total de Jon Lee e até de sua família, que se mudou com ele para Cuba.
“A minha convivência na guerrilha em outros países me mostrou que Che era uma referência entre essas pessoas. Ele era uma pessoa que, por uma ideia, mudou sua vida completamente. Comecei a me perguntar o que eu sabia sobre ele e percebi que havia muitas lacunas. Naquela época, não havia nada sobre ele, a não ser que você entrasse em uma livraria bolivariana”, contou Jon Lee.
Ele disse que passou a se interessar pela figura de Che e decidiu escrever o livro. Para isso, teve acesso a documentos inéditos e pessoais, como o diário de Che, o que segundo ele, ajudou a “sentir melhor” quem era Che.
“Viajei com Alberto Granado por quase todos os lugares que ele e Che viajaram [ele é o companheiro de viagem de Che no filme "Diários de Motocicletas"], e outros amigos de juventude dele foram me contando quem era o Che quando jovem e assim começou a surgir um’personagem possível para mim”, disse.
Foram 5 anos de dedicação ao trabalho que, segundo Jon Lee, mudou sua vida profissional e pessoal, além de ter deixado os editores de cabelos em pé pela demora da publicação e os custos da empreitada. “A única coisa que não vendi para fazer esse livro foi a minha alma, mas acho que a hipotequei algumas vezes”, brincou.
Hoje, como colaborador da prestigiada revista “The New Yorker”, ele diz que pode se dar ao luxo de levar 5 ou 7 meses para escrever um artigo, uma reportagem que precisa ser mais apurada, contando com todo o respaldo da publicação.
Muitas figuras já foram perfiladas por Jon Lee. Fidel Castro, Pinochet, Gabriel Garcia Marquez, entre outros. O critério para o jornalista é único: “Para o bem ou para o mal, são pessoas que nos despertam o apetite de serem decifradas, de descobrir o que é lenda e o que é verdade no que eles contam”.
Na conversa, Jon Lee falou de suas experiências no Sri Lanka, Líbia, Egito, de encontros com personalidades políticas dos mais diferentes tipos. Segundo ele, a dúvida sobre a nacionalidade do presidente americano Barack Obama mostra o quão racista a sociedade americana ainda é e que apesar da onda de revolta no mundo árabe, resta uma lacuna: um líder.
Outros pitacos da conversa:
Guerra ao vivo - ”Uma realidade criada, paralela. Mas também surreal. Ver uma guerra pela TV nos transforma em espectadores passivos. Dá a impressão de que você viveu aquilo, mas você não sabe nada daquilo. São imagens que já nos acostumamos a ver nos cinemas, com a diferença de que ali existe uma dor real. Se a TV pudesse transmitir a dor, seria perfeito. Seria horrível, mas seria real”.
Medo de situações de risco – “Tento não pensar na família e não ter medo. É difícil, pois é claro que acontece. Mas eu desenvolvi uma espécie de amnésia pessoal para esses momentos”.
Pior momento de uma guerra – “Ver crianças morrendo e não poder fazer nada e perder colegas de trabalho. Há uma semana estive no funeral de um colega morto na Líbia, e ontem [sexta, 20.5], fiquei sabendo que outro colega foi morto no mesmo país. Disseram que ele estava preso. Agora o mataram. Mas, apesar da dor, ainda acho a morte de crianças mais difíceis. Me sinto envergonhado pelos adultos, pois as crianças morrem pelas falhas do mundo adulto”.
Lados de uma guerra – “Para cobrir uma guerra, ou você está com um bando ou com outro. Morei em El Salvador durante a guerra civil, financiada pelos EUA. Mas eles eram malucos e não gostavam nem um pouco da imprensa. Diziam que éramos subversivos. Chegaram a dizer que havia um terrorista internacional atravessando um rio na cidade, e era eu! Quase morri em uma emboscada. Na Líbia, fiquei com os rebeldes e nem sempre o que eles diziam era verdade. É preciso ter experiência e intuição nessas horas”.
Laços com personagens – “Crio laços afetivos com as pessoas, nem sempre com os personagens. Ainda falo com Osama [personagem de uma de suas reportagens na Líbia, que acabou perdendo o filho na guerra], mas evito um pouco esse tipo de relacionamento. Nem sempre consigo porque, afinal, eles me deixaram entrar em suas vidas. O mesmo com o médico de Saddam Hussein que, a partir de um momento, passou a confiar em mim e me revelar segredos que na época poderiam resultar em sua morte. Quando Bagdá caiu e ele já não corria perigo, fiz um perfil dele. Sei que até hoje ele não leu. Entendi que fez isso para continuar sendo meu amigo”.
Novo líder revolucionário – “Pessoas têm carisma e outras não. Você sabe quando está em frente a alguém iluminado, é orgânico. Muitas vezes temos líderes sem carisma. Conheci um homem com esse carisma, mas o mataram há dois meses. Na Líbia não encontrei ninguém com essas características. É curioso, pois estava em busca desse líder lá. Creio que tem a ver com o fato de que há 42 anos apenas uma pessoa pode falar e o país é uma sociedade sem debate. Há pobreza intelectual. Depois de 42 anos, ninguém na Líbia tem ideias. Para muitos Osama bin Laden era esse líder revolucionário. Muitos atribuíram a ele um caráter heróico porque ele se opôs aos EUA. Uma forma desviada de mostrar um ódio sectário aos americanos”.













